Três experiências em curadoria: um funil para cada contexto

Ao abrir o espaço para refletir sobre o que é e como deveria ser a curadoria, saíram muitos horizontes em relação à necessidade de especialização do curador. Mas qual especialização? Deveria ser um critico, um historiador, uma pessoa especializada em artes? Ele está nesse lugar da arte de selecionar?

Obra: “Campo Muerto” (izq.) Fotos: Tiago Lima

A partir dos debates que aconteceram nas Jornadas de Curadoria da PID, Maria José Cifuentes (Santiago de Chile), diretora do festival “Escena Doméstica”,  compartilha sua experiência na curadoria do festival. “Escena doméstica” se realiza em casas e, no Chile, leva-se um ano realizando-o nas estações. Cifuentes afirma que o festival esta num processo de identificar-se com um tipo de curadoria, ainda mais de criar um estilo dela. Há um critério de seleção que parte de algo muito macro, como é o espaço caseiro, e vai se fazendo menor em relação a diferentes temas que se cruzam na curadoria. Também há critérios para pensar como compomos um final de semana.

Mesmo assim o festival parte de uma curadoria de idéias, explica Cifuentes, porque o artista as envia, então depois elas têm que ser desenvolvidas. “Nós acompanhamos o artista nesse processo de como chegar à resolução dessa ideia no espaço da casa. Se pensamos que o que estamos fazendo é um processo criativo, também é um processo de investigação e estamos investigando também sobre a curadoria.”

Outra experiência que fez parte das jornadas de curadoria é a de Sacha Witkoswich, diretor geral do “Festival Diagnóstico da Dança” que se realiza em Goiânia, o qual procura fomentar o diálogo entre o cenário da dança local e algumas produções nacionais e internacionais.

Witkoswich explica que em Goiânia não há um entendimento de ser um profissional de dança, ou seja, a grande maioria se dedica a dançar nos momentos livres, sem pretender ter a dança como profissão e buscar alguma lógica dentro do mercado. Por outro lado, o festival tem a motivação de se expandir na comunidade para além do ambiente da dança, mas abranger a comunidade da cidade. Embora tenha consciência da complexidade que implica aquele processo, ele conta que trabalham num conjunto de ações no intuito de chegar a comunidade sem impor nem invadir, senão buscando construir juntos.

Para tais fins, o diretor do festival entende que além da dança contemporânea, também  precisa levar certas danças populares do interior, como congadas ou danças do boi, danças que não estão inseridas no mercado e que acontecem em cidades que ficam a uma hora de viagem e as pessoas de lá não conhecem. Assim, no evento realizam-se falas, reflexões e proposições de dança a partir de uma pergunta que sempre surge: qual dança? A dança, toda dança que (se) provoca, que (se) inventa, que (se) incomoda.

Obras: “Territórios imaginários” (izq.); “Muaré” (dir.). Fotos: Tiago Lima

Por outra parte, Martha Hincapié (Berlim/Bogotá) traz sua recente experiência na direção artística do “Encontro Iberoamericano Plataforma Berlim”. O evento é organizado por artistas Iberoamericanos que moram e trabalham em Berlim. Eles têm trabalhado com grandes coreógrafos de lá, mas, quando deixam isso, não encontram um espaço de apoio e legitimação para que possam desenvolver seus trabalhos autorais.

Esse encontro, pensado para conseguir visibilidade as suas próprias criações, tem como ponto de partida a seguinte pergunta: o que a iberoamérica tem a dizer para a Europa?  Assim, Hincapié conta que desde a dança contemporânea busca-se tratar o tema da identidade. A seleção de obras se organiza em três sessões: “reconquista” – artistas que atingiram um certo reconhecimento ao nível dos europeus; “zona de promessas” – coreógrafos mais novos com propostas em processo; “Izquerda-Direita, Izquerda-Direita” – obras com ação política mais marcada.

Fotos: (izq.) Tiago Lima; (dir.) João Milet Meirelles.

Tambutti sem ânimo de julgar, mas sim de pensar juntos, sugere tomar cuidado com certos termos como “política”, “informação”, “identidade”, que se utilizam sobre que conceito se está falando e o que este implica. Por exemplo, o tema “identidade” é muito complexo de tratar, se aprofundamos um pouquinho vemos que a questão da identidade é mais um mito criado pela Europa, então, isso sim é uma questão “política”.

De alguma maneira, as “Jornadas de curadoria” permitiram um espaço de intercâmbio e reflexão para entender sobre que processo curatorial está atravessando cada experiência. Para recortar o termo curadoria há que esclarecer outros termos. Isso é um processo, senão não tem como fazer diferenças, tudo pode ser tudo.

 Texto: María Laura Corvalán

Comunicação da PID

Deixe uma resposta